quarta-feira, 28 de abril de 2010

Povo judeu, povo do Livro


Passei a refletir como é preciosa a palavra escrita, como isto proporciona o crescimento espiritual e cultural do ser humano, e foi por meio da escrita que Deus resolveu comunicar-se de forma mais plena conosco, desta forma, gostaria de falar do amor de um povo pelas suas Escrituras, um povo amante por excelência da literatura e que legou ao mundo uma herança espiritual que ajudou a moldar a presente civilização ocidental. Falo do povo judeu, povo eleito do Senhor, povo objeto de Seu amor e que espera o cumprimento das promessas de YHWH embora mantenham-se rebeldes a Jesus Cristo.

Sabemos todos nós que os judeus são zelosos de Deus, conforme as palavras de Paulo: "Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento" (Rm 10.2). Mas o Senhor Jesus disse uma palavra que denota o zelo que também possuem com as Escrituras: "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" (Jo 5.39).

Desde tempos muito remotos, o povo hebreu tinha condições de produzir registros escritos. A escrita semítica do norte, que era alfabética, existia já muito antes do tempo de Moisés. Todos os povos do mesmo fundo cultural dos hebreus já conheciam a escrita desde o quarto milênio a.C. Os egípcios e os assírios tinham bastante cuidado em registrar seus feitos, e os hebreus não foram menos escrupulosos que esses na transmissão de seus textos.

Flávio Josefo relata que seus compatriotas foram reverentes em relação ao Texto Sagrado, não se aventurando a remover, adicionar ou alterar uma sílaba sequer e menciona que é instintivo para cada judeu, desde o dia de seu nascimento, considerar as Escrituras decretos de Deus, vivendo segundo elas, e se necessário for, morrer alegremente por elas. Josefo simplesmente estava expressando a própria atitude dos escritores bíblicos, conforme vemos em Dt 4.2: "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando" ou Jr 26.2b: "....todas as palavras que te mandei que lhes dissesses; não omitas nenhuma palavra." Críticos há que acusam de que os judeus teriam abandonado estes princípios, mas nada há que comprove esta acusação. O que ressalta na história dos judeus é de que eles entesouravam a Palavra de Deus. Os escritos de Moisés eram preservados na arca (Dt 31.26); as palavras de Samuel foram colocadas num livro, e o pôs perante o Senhor (1 Sm 10.25); a lei de Moisés foi preservada no templo nos dias de Josias (2 Rs 23.24); Daniel tinha uma coleção dos "livros" nos quais se encontravam "a lei de Moisés" e "os profetas" (Dn 9.2,6,13); Esdras possuía cópias da lei de Moisés e dos profetas (Ne 9.14, 26-30); os crentes do Novo Testamento possuíam todas as Escrituras do Antigo Testamento (2 Tm 3.16), tanto a lei como os profetas (Mt 5.17); Jesus fez menção da tríplice divisão da Bíblia hebraica, ressaltando assim como estavam completamente disponíveis em seu tempo (Lc 24.44).

A maravilhosa prova de que os judeus tinham de fato zelo e apreço por suas Sagradas Escrituras está no fato de que sua transmissão era cercada de todos os cuidados. Se fosse percebido algum erro na cópia dos manuscritos, todo aquele rolo era inutilizado e o trabalho era recomeçado. Os escribas contavam todas as letras de cada manuscrito para verificar se conferia com o original, os manuscritos desgastados pelo constante uso, eram descartados e enterrados. Segundo uma tradição talmúdica, todo manuscrito que contivesse erro ou falha e todo aquele demasiadamente gasto pelo uso eram sistemática e religiosamente destruídos. Ainda segundo o Talmude, só determinados tipos de peles podiam ser utilizados, o tamanho das colunas era controlado por regras rigorosas, além de haver um ritual que o escriba deveria seguir ao copiar um manuscrito.

Podemos então afirmar que o texto do Antigo Testamento devia sua exatidão à habilidade e à confiabilidade dos escribas que o transmitiram. Quando os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1947, comprovou-se que os seus textos são 1.000 anos mais antigos que os textos massoréticos. Massorético se refere a um grupo de manuscritos hebraicos datados desde os primeiros séculos da Idade Média, sendo que todos possuem um padrão elevado de uniformidade textual, exatamente devido ao trabalho consistente e meticuloso dos escribas judeus do período medieval conhecidos por massoretas. Comprovando-se a antiguidade dos Manuscritos do Mar Morto, chegamos à conclusão de quão zelosos eram os escribas judeus e isto no decorrer dos séculos, porque não há diferenças significativas entre estes textos e os textos massoréticos compostos mil anos após.

Deus em sua sabedoria e providência, conduziu seu amado povo para que preservasse Sua revelação e isto ficou demonstrado pela maneira sem igual como transmitiam seus manuscritos. Nenhum outro povo neste mister pode ser comparado ao povo judeu. De fato eles são o povo do livro, livro este que traz a revelação do Senhor do Universo e de Seu grande amor para trazer a salvação a todos os seres humanos através da Pessoa maravilhosa de Seu Filho Jesus Cristo.

Como cristãos, deveríamos copiar este zelo e este cuidado que os judeus ainda cultivam pelas Sagradas Escrituras. Jesus, sendo um autêntico judeu, demonstrou uma grande reverência pelas Escrituras e repreendia a todos que a desobedeciam ou não a conheciam devidamente (Mt 5.17-19; 22.29). Tristemente, nem todos os seguidores de Jesus possuem semelhante zelo. Esta lição deveremos ainda aprender com o povo judeu, que podem ter rejeitado a Jesus como o seu Messias prometido, mas não podemos negar que eles possuem um zelo inflamado pelas coisas de Deus, embora o Senhor fale pela boca do profeta Isaías: "Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído" (Is 29.13; Mt 15.7-9; Mc 7.6,7). Poderemos também incorrer no mesmo erro, porque embora amem a Torah, as Escrituras do AT, ao mesmo tempo dão crédito a palavras de homens que distorcem a eterna e imutável Palavra de Deus.

Excetuando suas faltas e sua cegueira em relação a Jesus, todavia não se pode negar o milenar zelo que possuem os judeus em relação às suas Escrituras (o Antigo Testamento). Copiemos este bom exemplo. Para nós que possuímos a completa revelação de Deus, porventura não deve ser o nosso cuidado e observância mais excelentes porque somos participantes de uma superior aliança e somos beneficiários de melhores promessas?

Pense nisto.

2 comentários:

  1. A erudição judaica é notória, porem é sempre preciso se fazer uma resalva,que em alguns fatos não sequenciam a realidade teológica,porem possuem zelo e vivacidade intelectual.
    www.vivendoteologia.blogspot.com

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  2. De fato amado irmão, pertence aos cristãos o privilégio de vivenciar a verdadeira realidade teológica, como foi muito bem notado por vc. Mas ao mesmo tempo, como tentei demonstrar no post, sofremos com nossa falta de zelo e vivacidade intelectual (obviamente, sem generalizações). E neste quesito, a história mostra cabalmente como era o trato dos judeus com suas Escrituras. Obrigado por seu comentário.

    Cicero Ramos

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