segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O racionalismo de Descartes, fundamento do ateísmo contemporâneo


Atribui-se a René Descartes (1596-1650) a paternidade da filosofia moderna. Seu objetivo era a elaboração de um método de investigação que facilitasse a descoberta daquelas verdades integralmente corretas. Ele personificava a Idade da Razão que surgia. Descartes cria que a introdução do rigor da demonstração matemática nos campos do conhecimento tinha um grau de correção maior do que do conhecimento oriunda da observação empírica, sujeita a erros.

Havia uma diferença fundamental em Descartes em relação aos filósofos empíricos do século seguinte - ele não se deixou vencer pelo ceticismo. Em sua busca pelo conhecimento preciso, ele partiu da dúvida e nesta proposta, colocava em dúvida todas as coisas, porém chega a concluir de que há uma coisa, pelo menos, do qual nenhum ser pensante pode duvidar - sua própria existência. Tomando emprestado de Agostinho (354-430) ficou famosa a máxima cartesiana - cogito ergo sum - "penso, logo existo."
Ao comprometer-se radicalmente com a dúvida, houve, para grande alegria de Descartes a produção de uma certeza inquestionável e consequentemente um fundamento com base no qual seria edificada uma estrutura racional segura.

Isto posto, surge a partir da metodologia filosófica de Descartes uma nova visão do ser humano. Passa a definir o homem como uma substância pensante e a pessoa humana como sujeito racional autônomo. A ênfase é na experiência pessoal e no conhecimento pessoal resultante do ponto de vista particular do indivíduo. Fica assim estabelecida a partir de Descartes a centralidade da mente humana e o programa filosófico para os próximos três séculos. Os filósofos da modernidade acataram o método cartesiano, partindo também da dúvida e insistiam que toda a crença fosse considerada falsa até que sua veracidade fosse comprovada. A partir deste ponto, rompe-se o equilíbrio da cosmovisão do mundo medieval pautada pelo teocentrismo e passa-se a admitir o antropocentrismo. O ponto de partida para o conhecimento e a reflexão agora é o sujeito pensante, o homem e sua racionalidade, e não mais a revelação divina.

A Bíblia passará a ser submetida a métodos racionalistas para ser "devidamente" compreendida. O Iluminismo que surge a partir do método cartesiano influencia aos teólogos que passam a construir sua teologia sobre o fundamento da filosofia racionalista - para esses, a razão passa a ser, por si mesma, competente para a produção do conhecimento das verdades eternas.

Claramente são percebidas as implicações para a fé e a teologia por causa do racionalismo cartesiano. E esta influência chega fortalecida em nossos dias com a negação e ataques sistemáticos feitos à fé cristã e à Bíblia pelos ateus e céticos de plantão. Este fluxo é engrossado por aqueles egressos do Cristianismo que, por vários motivos, passam a posicionar-se contra o mesmo também rejeitando com veemência a Palavra de Deus.

O irônico é que René Descartes, ele mesmo, era um cristão. Ele cria na Bíblia e considerava Deus o ponto central em toda a sua filosofia. Logicamente, não podia imaginar que o seu método fundamentado na matemática, pudesse dar origem ao clima hostil e à rejeição que hoje se nota em muitos no que tange à Jesus Cristo, à Bíblia e a fé cristã em geral.

Obviamente somos seres pensantes, racionais. Entretanto, não rejeitamos, como cristãos, a fé na Palavra de Deus, a crença em Jesus e em seu nascimento virginal, nos milagres, etc. Isto porque, se Deus é realmente Todo Poderoso, Perfeito, Justo, Santo, pode satisfazer plenamente à mente humana crer na existência de tal Ser. As evidências a favor da Bíblia e a favor da existência de Deus são robustas. É razoável crer que Deus existe e que a Bíblia é a Sua revelação para o homem. Os cristãos não devem temer os ataques à fé que professam. A Igreja está guarnecida pela verdade bíblica (1 Pe 1.25). Crer é também pensar, como afirma um dos livros de John Stott. Não somos postulantes de uma fé racionalizada. Francis Schaeffer disse em A Morte da Razão que o racionalista coloca-se deliberadamente no centro do universo insistindo em sua pretensa autonomia e acaba assim destituído de significado e realce, nulo e sem valor real. Schaeffer ensina-nos ainda que o Cristianismo é um sistema constituído de um elenco de ideias que se pode discutir. Tem um princípio e se desenvolve desse ponto de partida em moldes que se não contradizem. Esse ponto de partida é a existência do Deus pessoal-infinito como Criador de tudo o mais que existe. Não é o Cristianismo, ainda citando Schaeffer, uma série vaga de experiências incomunicáveis, baseadas em um "salto no escuro", totalmente inverificável.

O que Descartes fez foi estabelecer a mais próxima certeza da existência de Deus - porque somente se Deus existe e não queira que sejamos enganados por nossas experiências é que poderemos confiar em nossos sentidos e processos lógicos de pensamento. Rejeitamos todo tipo de racionalidade portanto que nega a Deus e nega ao próprio homem ao declarar orgulhosamente que pode por meio de seus próprios processos mentais, descobrir a verdade sobre a vida, sobre si mesmo, negando a soberania de Deus sobre todos nós.

Pense nisto! Com esta expressão sempre concluímos nossas postagens. É preciso mais do que nunca pensar sobre a revelação que Deus faz de Si mesmo na Bíblia, pensar na obra consumada de Jesus Cristo na cruz, pensar sobre o homem, sobre nós mesmos, em que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, portanto em posição elevada em relação ao restante da Criação, mas ao mesmo tempo, estamos separados de Deus por causa da Queda acontecida em determinado ponto da história do homem sobre a terra. É inteira e completamente mais plausível o que está registrado nas Escrituras judaico-cristãs sobre Deus, o mundo e o homem do que podem os filósofos arguir com suas vãs especulações, ou, por outro enfoque, quando meros homens, meras criaturas de Deus, querem convencer a outras criaturas de que Deus é irreal.

Em tempo: Pense muito e continuamente sobre tudo isso. Que assim seja!

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